sexta-feira, 7 de outubro de 2016

E se o meu filho não fosse autista?




Na semana passada uma grande amiga, a Ninha postou em seu Facebook essa pergunta e eu me lembrei das inúmeras vezes em que me fiz essa mesma pergunta. Acho que nunca tive uma resposta definitiva mas me lembro de algumas das inúmeras coisas em que eu mesmo me respondi. Tenho certeza que ninguém planeja ter um filho autista, e eu já contei em como o Miguel foi planejado e desejado, agora acho que em uma nova gravidez eu me pegaria fazendo a pergunta em como seria a minha vida com um filho especial, mas antes do Miguel eu confesso que nunca pensei nisso, acho que nunca imaginamos como uma probabilidade real. Tudo o que respondemos quando nos perguntam se queremos menino ou menina , é que tanto faz, se vier com saúde tá ótimo, mas as vezes não pensamos na real importância desse "se vier com saúde". Não que o Miguel não tenha saúde, graças a Deus ele é muito saudável, autismo não é doença, mas claro que eu não planejei ser mãe de uma criança autista.

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As vezes me pergunto  como seria nossas vidas sem o autismo, em algumas situações desafiadoras que passamos. 

Por exemplo, quando vejo o Miguel querendo brincar com um grupinho de crianças e essas mesmas crianças o deixando de lado, eu já perguntei algumas vezes, como seria se o Miguel não fosse autista? Com certeza ele estaria brincando de carrinho ou qualquer outra coisa com essas mesmas crianças, não seria excluído das brincadeiras, imagino os priminhos vindo em casa brincar com ele, jogando bola com ele, imagino ele conversando com os avós, pedindo sua comida preferida, imagino ele me pedindo um presente de aniversário, ou de natal, e continuo querendo muito ver ele fazendo isso, mesmo que seja o presente mais caro da loja. 


Imagino ele vendo as propagandas de TV e como todo menino de cinco anos me pedindo pra comprar aquela pista de carrinhos que acabou de lançar. Imagino ele chegando da escola e me contando das brincadeiras do dia e cantando a nova musiquinha que aprendeu. Imagino como a minha casa poderia ser menos bagunçada, como a alimentação poderia ser o mais fácil. Como ele poderia ser uma criança encantadora falando sobre as coisas novas que aprendeu e os adultos interessados em lhe dar atenção.Imagino como seria fácil desfraldá-lo e não precisaríamos passar por tantas situações difíceis com isso como passamos. Imagino ele chegando aos lugares diferentes e ninguém o olhando e encarando por ele estar em uma crise sensorial depois de tantos estímulos diferentes, ou ainda ele conversando com uma outra criança normalmente sem eu ter que ouvir sempre "Tia, porque ele não fala". Imagino como ele poderia dizer "obrigado" sempre que alguém lhe oferecesse uma bala, sem ir aos pratos alheios buscar aquele alimento que ele gosta e acabou de ver. Imagino ele indo alegremente pra escolinha de futebol todo contente, e indo pegar o que quiser pra comer ou pra brincar sem ter que me puxar pela mão enquanto faço algo importante. 


Talvez eu não fosse tão esgotada fisicamente e cansada mentalmente. Mas quer saber? Acho que com tudo isso eu é que seria uma pessoa diferente, eu sempre comento como me tornei uma pessoa melhor depois do Miguel e sei o quanto eu mudei. Mudei meu jeito de pensar, meu jeito de ser, hoje bem mais paciente e não como antes que tudo tinha que ser do meu jeito. Descobri que sou mais forte do que pensei. Hoje vejo crianças e pessoas adultas especiais como uma importância muito maior, e reconheço que antes passava despercebido também por mim, ou então eu sentia pena, hoje sei que eles não precisam que o olhamos com pena, devemos ter pena é das crianças que passam fome, frio, são órfãs e sozinhas ou  abandonadas pelas famílias, as crianças especiais são apenas diferentes, mas superam todos os dias grandes desafios e sempre vencem, temos é muito o que aprender com eles, devemos é sempre olhar com um olhar de amor. Talvez eu não seria essa mãe tão leoa que enfrenta tudo e todos para garantir os direitos do meu filho. 


Talvez eu não desse tanta importância pra cada aprendizado do meu filho e não comemorasse as pequenas conquistas como faço hoje. E no fim de tudo, quem me garante que tudo ocorreria como eu sempre pensei? Quem pode me garantir que ele não seria o garotinho briguento que só sabe bater em outras crianças? Quem me garante que ele seria gentil com os avós e os mais velhos em geral, ou ainda gostaria de ir pra escola e não seria aquela criança que faz birra e se joga no chão da loja querendo o brinquedo mais caro? Que me garante que ele seria um menino educadinho quando chegasse nos lugares, ou que ele realmente gostaria de futebol. Quem me garante que a minha casa seria mais organizada, ou que ele seria legal com as outras crianças. Talvez o que as vezes eu julgo importante, deve sim ser deixado de lado só pra atender ao chamado do meu filho e ficar com ele. Talvez eu dormisse mais, mas quem liga pra isso? rsrs ... né? Se dormimos demais deixamos de viver. 


O fato é que não temos garantia de quase nada nessa vida, fazemos planos sim, mas o real é bem diferente do idealizado. Muitos pais tem filho típicos que julgam normais porém passam grandes desgostos ao ver seus filhos entregues ao mundo das drogas ou do crime e muitos acabam perdendo a vida com isso, e sei que esse tipo de preocupação eu não vou ter, porque essa deve ser a maior tristeza de um pai ou uma mãe. Antes de tudo, o Miguel não seria o "meu Miguel" sem o autismo, com certeza ele não seria quem ele é, e eu não sei como poderia ser o outro Miguel  mas eu adoro o que tenho, ele me ensina muitas coisas ao invés de eu ensiná-lo sempre. Não amo o autismo, mas amo o meu filho independente de diagnóstico, e isso nunca vai mudar. è preciso ter força sim, todos os dias, autismo não é fácil, não é brincadeira, não é um mundo de rosas como algumas pessoas querem demonstrar, pelo menos não aqui em casa, mas eu me fortaleço a cada dia para enfrentar tudo que tem pra vir. Aprendi a amar além do que podemos ver e ouvir além do que possam nos dizer. Tenho uma fé inabalável em Deus que me faz crer que meu filho vai sempre me surpreender para o melhor e a cada dia eu tenho um aprendido com ele. è um aprendizado sempre. 

Já consegui conquistar muitas vitórias, vencer muitas barreiras, mesmo que as vezes venha as lagrimas, tristezas e grandes desafios. 

Meu filho especial é o meu anjo, meu amigo, companheiro, amoroso. E a cada dia estou aprendendo mais e mais sua comunicação,  e aproveitando o máximo de sua companhia . Ele é o ANJO que Deus me deu e que estou tendo o privilegio de usufruir deste tesouro aqui na terra. Nunca ouvi um " Mamãe eu te amo " completo e talvez nunca ouça... mas não tem preço receber inesperadamente um beijo, um cheiro, afago nos cabelos ou ser acordada com um beijo ou com um pulo em cima de mim... rsrs. Simplesmente eu acho que nada na nossa vida é por acaso, que Deus sabe tudo o que faz, busco diariamente ser uma boa mãe e fazer tudo posso para o meu filho. Isso sem falar nas amizades que o autismo me trouxe, pessoas do outro lado do Brasil que eu não poderia nunca conhecer, e que hoje mesmo sem nunca ter visto pessoalmente são minhas melhores amigas e entendem exatamente o que quero dizer e estão sempre prontas a me ouvir se preciso de alguém pra desabafar. Isso tudo não tem preço... E foi aí que eu aprendi através deste mundo virtual, que existem tantas outras mães que estão comigo nesta jornada! Batalhas diferentes mas guerras iguais, pelo mesmo objetivo. Para ser mãe de autista precisa de algumas doses de amor, energia, paciência, reflexo rápido, olho atentos, uns 8 pares de olhos na verdade, mas  fazemos tudo isso com muito amor sempre. A verdade é eu acho que todas nós já nos fizemos ou faremos um dia essa pergunta, e como começa a resposta não importa muito, o importante é o que o final seja sempre "o mais importante é sempre ter aqui o meu filho!


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2 comentários:

Dai Duarte disse...

Que lindo Joice, impossível não se emocionar! Você é uma guerreira e tenho certeza que o Miguel tem muito orgulho dessa mamãe.

Joyce Almeida disse...

Obrigado Dai <3 Miguelzinho que me faz ser forte <3

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