sábado, 26 de novembro de 2016

A vida profissional de uma mãe especial



Eu comecei a trabalhar muito cedo e tenho o maior orgulho disso, comecei na adolescência e nunca tinha parado. Sempre trabalhei muito. era aquela pessoa que sempre fez horas extras, aliás em uma empresa eu trabalhava de domingo a domingo sem folga, claro que é contra lei mas o brasileiro sempre dá um jeitinho, e em outra empresa eu trabalhava 14 horas por dia, ia pra casa só pra dormir e nessa época eu já era casada e meu marido era meu braço direito em casa. Ao longo do tempo e da história da humanidade, a mulher conquistou importantes vitórias no lar, na sociedade, no mercado de trabalho onde os homens ocupavam todo o espaço, agora a mulher desempenha muito bem o papel de profissional em qualquer área. Mais do que conseguir um bom emprego, exercer a profissão, se firmar na área e mostrar seu valor, a mulher não deixa de ser mulher e paralelo a isso também muitas mulheres mantém firme seu desejo de ser mãe. 

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Quando criança eu nunca fui pra creche e cresci ouvindo que creche não era boa, e eu tinha isso em mente (o que hoje eu penso completamente diferente, alias sou super a favor) 

mas na época eu era super contra a creches e escolinhas e aliás até contra deixar o filho com babá pra trabalhar, então quando eu e meu marido resolvemos que teríamos um filho eu já falei pra ele que assim que nascesse eu pararia de trabalhar por 2 ou 3 anos para curtir apenas a maternidade e meu marido super concordou. Trabalhei durante toda a gestação e parei 15 dia antes do Miguel nascer porque estava tendo dilatação já, mas caso contrário eu teria trabalhado até o ultimo dia. Pois bem, o Miguel nasceu e eu fiquei em casa, depois da licença pedi dispensa do meu emprego e não voltei mais a trabalhar. Claro que eu acostumada a trabalhar desde sempre, as vezes estranhava, mas o ficar em casa com meu filho era tão pleno, curtia a cada momento e realmente eu não conseguiria deixá-lo para voltar a trabalhar. O tempo foi passando, depois de um ano e cinco meses os sintomas de autismo começaram a aparecer e começou nossa busca por um diagnostico que só veio quando o Miguel tinha mais de 3 anos. Nessa época, as despesas financeira já tinham aumentado, o Miguel já estava maior e eu comecei a sentir vontade de voltar a trabalhar, mas o Miguel não falando e com outras dificuldades como não aceitar comida de ninguém, eu não tinha como deixar ele em uma escolinha (pelo menos é o que eu achava) e não tinha ninguém pra deixar. 


Enfiei a cara em um curso de fotografia, sempre amei fotografia, e no começo as pessoas não davam muito valor, achavam que não ia dar em nada mas depois de um tempo de curso já comecei a ter alguns trabalhos, para mim ir, eu deixava o Miguel com uma cunhada que me ajudou por muito tempo mas depois ela se mudou e eu perdi a pessoa que mais me ajudava. Hoje ainda trabalho como fotografa, e as vezes consigo conciliar meu horário com o horário que meu marido está em casa já que ele trabalha apenas no período da tarde, mas nem sempre consigo, e é ai que está o problema. Minha mãe que tenho certeza que me ajudaria muito, mora em outra cidade. O fato é que ninguém quer cuidar de uma criança especial, é bonito falar que mãe especial é uma heroína mas na hora de ajudar ninguém quer ficar com uma criança que precisa de mais cuidados que uma criança tipica. Se for contratar alguém pra ficar, nunca se acha alguém disposto e quando se acha já vi pessoas pedirem o dobro do valor por a criança ser autista.


Para dificultar a vida de uma mãe especial, muitas como eu não conseguem o beneficio para os filhos porque o governo julgam que apenas quem tem a renda per capita de 1/4 do salário minimo tem direito, sem colocar em conta os gastos muitas vezes quase incontáveis que temos com nossos pequenos por seus cuidados especiais, isso sem falar nos preços as vezes exorbitantes das terapias e em alguns municípios o SUS não oferece e os pais tem que se virarem para dar um tratamento para o filho autista, outras vezes o SUS oferece uma básica de 30 minutos por semana apenas com cada profissional, é o que temos para o Miguel hoje pelo SUS, e infelizmente eu não posso pagar para um trabalho mais intenso ou uma natação que muito ajudaria, afinal esses 30 minutos é muito pouco para uma criança que precisa ser estimulada constantemente .


Algumas vezes conseguimos alguns anjos para nos ajudar e eu tenho me esforçado e me virado nos trinta pra trabalhar por conta própria e assim me realizo profissionalmente e temos uma grande ajuda de renda em casa. Conheço algumas mães que familiares a ajudam cuidando do filho para elas trabalharem, mas não pensa que por isso a vida delas fica mais fácil. A forte cobrança para cuidar do filho e do emprego ao mesmo tempo e com igual dedicação é uma das grandes preocupações dessas mulheres. Buscar uma boa colocação no mercado de trabalho, investir na carreira e não abrir mão da maternidade especial, exige da mulher disposição e desenvoltura para conciliar a dupla jornada. “Ser uma excelente mãe e uma excelente profissional muitas vezes não é fácil, mas para conciliar as duas coisas me entrego totalmente à função que estou exercendo no momento com amor, dedicação e responsabilidade. o segredo para administrar todas as atividades como mãe, esposa e profissional está na dedicação de cada atividade de maneira completa, cada uma em seu momento.

 “Se está no trabalho não se culpe por não estar com os filhos, faça seu trabalho solenemente, se está com seus filhos não pense o quanto de trabalho ainda deve realizar,
mas aproveite a companhia e ouça seus filhos como se não houvesse nada mais importante a fazer”Quando estou no trabalho, foco todos os meus esforços na vida profissional e quando estou em casa ofereço o meu melhor para meu filho, com muita paciência, calma e amor. Nada de levar stress ou serviço para casa e nada de problemas pessoais no trabalho. Assim, tento ao máximo traçar um paralelo entre as duas funções em que ambos fiquem satisfeitos” Na verdade, meu trabalho acaba sendo uma terapia pra mim, amo o meu trabalho também. 


Ser uma mãe participativa e trabalhar é um grande desafio, principalmente quando os filhos são crianças especiais e exigem maiores cuidados, o cansaço físico se torna ainda maior.  É preciso ter energia e planejamento, concluir com a jornada de trabalho, chegar em casa e exercer o papel de mãe com cuidados (banho, alimentação), brincadeiras, atenção, uma parte terapêutica que sempre temos que cumprir em casa também, e até mesmo o simples ato de assistir um filme ou desenhos juntos, requer da mulher disponibilidade. Procuro organizar meu tempo, fazendo com que renda bastante, pois são inúmeras coisas para fazer e o tempo passa muito rápido, aliás meu trabalho não acaba quando chego em casa, a maior parte do trabalho é depois quando chego em casa que tenho que editar muitas vezes mais de 1000 fotos de um único evento e fazer isso com o Miguel em casa não é tarefa fácil, ele parece sentir ciumes do computador, é eu sentar em frente que ele vem me chamar pela mão para pegar algo para ele ou para brincar com ele, teve um tempo que se eu demorava em atendê-lo, ele desligava o computador no botão de reset, por isso eu acabo deixando para trabalhar no computador quando ele dorme o que ocorre cedo em torno das 20hs é ai que eu começo a trabalhar de verdade. Essa é a parte ruim de trabalhar em casa também, porque quem trabalha em uma empresa, ao ir embora pode se desliga do trabalho como eu citei acima, mas no meu caso o trabalho continua e eu tenho que dividir o
profissional com o mãe, dona de casa e esposa.




E tudo o que eu não queria e sei que nenhuma mãe quer é perder a infância dos nossos pequenos.  é um tempo maravilhoso mas que passa muito rápido e deve ser aproveitado ao máximo. Claro que não é fácil conciliar todos os nossos direitos e deveres de mãe especial, mas mães temos um poder que as vezes nem sabemos, somos a fortaleza deles! e eles sem duvidas também é a nossa! Já fiz um post sobre as culpas que as vezes as mães sentem, e confesso que volta e meia bate a culpa, principalmente quando estou fazendo algo por mim, lendo um livro, ou quando vejo nos grupos que participo as mãe de outros autistas pesquisando mil terapias e formas de tratamento, dietas e etc, e parece que elas só fazem isso, e nunca tiram um cochilo de 10 minutos a tarde como eu faço mesmo com a casa de pernas pro ar... mas daí eu penso, mas e se eu não tiver esses momentos de escape? Vou surtar.. com certeza... e eu não posso me dar ao luxo de surtar, afinal meu filho 'especial' precisa de mim... As vezes parece que só eu não tenho 30 horas no dia pra fazer tudo o que queria. Enfim, parece que sempre vamos ter que tomar decisões e  nesse caso conforme disse Biddulfh (2007):“ as grandes decisões de sua vida situam-se entre dinheiro e amor“ ... e no momento em que o amor se tornar a força motora de sua vida, então tudo mudará. Você não vai se arrepender” e vai aprender a conciliar tudo o que precisa. 



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1 comentários:

Vic Santos disse...

E COMPLICADO, AS VEZES EU QUERIA TER UMA VIDA SOCIAL, SAIR PARA DANÇAR, JOGAR CARTAS, VIAJAR MAS EU NAO TENHO CORAGEM DE DEIXAR MEU FILHO, ACHO QUE NINGUEM VAI SABER CUIDAR DELE COMO EU....

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