quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Falando de Estereotipias ou Stimming





Desde as primeiras consultas com a neuropediatra, ouvimos algumas perguntas do tipo " O Miguel gira em torno do próprio corpo? Agita as mãos? Balança o corpo de frente para trás ou para os lados? Anda na ponta dos pés? Estala os dedos? Faz sons repetitivos? A resposta era sempre não. Realmente nessa época a unica coisa que o Miguel fazia era girar as rodas de carrinhos, mas só fazia isso com o carrinhos, com tampas e outros objetos redondos não, apenas com os carrinhos e também enfileirava objetos, mas depois de um tempo fazendo terapia ele parou. Talvez essa falta de estereotipias tenha ajudado a atrasar um pouco o diagnóstico, mas na época ele não apresentava esses comportamentos e ficou assim até uns dois meses atrás.

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De um tempo pra cá, ele começou a bater palmas e dar pulinhos quando está muito feliz com alguma coisa, agora também fica com uma som incansável de "humm" e percebo que é sempre que estamos andando de carro ou de ônibus, em casa ele não faz esse som além de outro som tipo "Rã" (quando a gente quer limpar a garganta) ele faz isso quando quer nos dizer algo, já que ele não fala usa esse som. Sim, as estereotipias deram o ar da graça aqui em casa, eu não sei dizer o porquê elas não apareceram antes já que é tão comum em autistas, mas ele ficou uns dois anos sem nem mesmo girar as rodas dos carrinhos e enfileirar objetos. Mas vamos entender um pouquinho sobre. As estereotipias ou os stimmings ,(já vi alguns autistas dizerem que preferem assim ser chamado)  são movimentos de autoestimulação ou também chamados de autorregulatórios, muito comuns em pessoas com autismo. São movimentos que pessoas neurotípicas também fazem, mas de forma menos intensa e têm controle sobre eles. Esse comportamento pode ser motivado para buscar sensações, proporcionar bem estar ou simplesmente pela tendência à repetições, que é uma condição do autismo. Balançar as mãos, bater os pés, girar objetos ou o próprio corpo, estalar os dedos, fazer sons repetitivos e todos aqueles que eu citei no inicio contando que o Miguel ainda não apresentava são exemplos de stimmings e geralmente presente no autismo. Nossa vontade inicial é tentar conter esses movimentos.


Pode parecer que, quando a criança está praticando uma estereotipia, está distraída e não conseguirá se concentrar. Porém, esses movimentos são, na maioria das vezes, inofensivos e podem até ser benéficos para a criança. Já ouvi alguns autistas adultos dizerem que ao contrário do que parece, eles ficam muito mais concentrados nestes momentos e conseguem "organizar" os pensamentos ou também quando estiver em uma situação de estresse. Muitos autistas conseguem pensar e se concentrar melhor enquanto fazem estes movimentos. Geralmente elas fazem esses movimentos quando são muito estimuladas, ou seja, nós neurotipicos recebemos centenas de estímulos todos os dias, e sabemos que os autistas recebem muito mais e isso pode causar uma certa "desorganização" no cérebro deles.


Imagina você chegando a um shopping já barulhento e movimentado e de repente todos os barulhos, movimentos, sons e luzes entram de um vez para o cérebro e você precisa organizar tudo isso, 

separar cada um deles, os autistas sentem tudo de uma vez e até mesmo o que passa despercebido por nós eles veem e ouvem, eu vejo isso com o Miguel aqui. Já vi mães dizerem que ao contrário do que os terapeutas recomendam, elas "cortavam" esses movimentos, proibiam a criança de fazer e isso deu certo pra elas. Gosto sempre de dizer que autistas são únicos e cada um é diferente do outro, o que significa que o que funciona pro meu filho pode não funcionar para o seu, e eu sempre falo também que não sou profissional da área, conto apenas minhas experiencias com o Miguel. Se deu certo para aquelas crianças, ótimo, isso é o que importa.


Eu prefiro dizer que a estereotipia precisa ser tratada quando prejudica a criança, como quando ela costuma bater a cabeça, por exemplo, se auto agredir ou agredir as pessoas  próximas a ela. Também precisa ser regulada quando a prática compromete as atividades do dia a dia, restringindo seu aprendizado ou também limitando seu desenvolvimento social. Ou seja, precisa de tempo e local definidos, que a criança consiga visualizar o começo e fim. Ela precisa ter um pouco de controle destes movimentos. Fazer terapia focada na regulagem da estereotipia pode auxiliar a criança a não ser controlada por esses movimentos, ampliando seus interesses, variando a forma de brincar com um mesmo objeto, ou respondendo de formas diferentes a uma mesma pergunta, por exemplo. 


Na maioria das vezes elas vem porque a criança não consegue se comunicar, não consegue transmitir o que quer no momento, e por isso vem os movimentos, acho importante antes de conter o movimento tentar identificar o que levou a criança a começar a se balançar por exemplo, foi uma sobrecarga de estímulos? Se é por ela não saber se comunicar como por exemplo crianças que não falam, que tal procurar com os terapeutas uma comunicação alternativa? O mais importante pra nossos filhos é descobrir uma maneira de se comunicar. Geralmente vem pela  hiper ou hiposensibilidade a estímulos sensoriais, para comunicar frustração e / ou dor ou porque é calmante e / ou incrivelmente agradável. Quando elas são percebidas como estranhas ou indesejadas por  pessoas não autistas, frequentemente um grande esforço é empregado em bloquear ou extinguir tais movimentos.


É preciso ter cuidado ao restringir um comportamento desse, é que ele pode ser substituído por outro talvez mais "danoso"

O Miguel sempre pula e bate palmas quando está muito feliz, quando estamos voltando da escola e ficamos esperando o ônibus ele dá pulinhos e bate palmas porque adora andar de ônibus e sabe que logo vai entrar em um. Claro que todas as pessoas em volta ficam olhando e isso pode ser o gatilho para alguns pais quererem conter, afinal as estereotipias denunciam que a criança é diferente, e muitos querem ver seus filhos "menos autistas". Enquanto tudo isso não "atrapalha" o Miguel eu não forço ele a mudar, os olhares não me incomodam mais,  confesso que no começo eu até ficava incomodada com tantos olhares hoje eu me libertei e sou bem mais feliz assim! Quando meu pequeno faz fora de casa ou em casa com visitas eu faço cara de tô nem aí!!! Descobri que ele só faz mesmo quando está muito feliz, aceitei que é o jeito dele se expressar, não dou mais bronca porque sei que é passageiro, hoje minha maior prioridade é vê-lo feliz e sei que pra isso ser constante ele precisa da aceitação de todos, estou aprendendo dia após dia a conjugar o verbo aceitar. Hoje mesmo li uma matéria que uma criança autista aguardava na fila para ver o papai noel e estava dando pulinhos de felicidade e o homem que estava de papai noel se incomodou e deu uma bronca o que fez com que o menino chorasse, me imaginei na hora naquela situação porque é exatamente o que o Miguel faria, quando ele está feliz ou ansioso ele pula. Sabe porque não me incomodo mais também com os pulo? eu tenho estereotipias, e quem não tem?, sim, eu quando estou ansiosa balanço os pés e quando estou ociosa, tenho mania de ficar enrolando o meu cabelo, coisa que minha mãe me conta que meu pai já fazia, ou seja, a a diferença é que eu tenho total controle.


Converse com o terapeuta do seu filho, ele pode te indicar o melhor a ser empregado, aqui temos a ajuda da psicologa e da terapeuta ocupacional, mas como eu disse até agora isso não tem prejudicado o Miguel. É preciso ter total confiança nos terapeutas que acompanhamo seu filho, se você não confia em um deles, troque, é preciso essa troca de confiança para que tenha um melhor aproveitamento das terapias, uma vez que maus profissionais existem em todos os locais, e é importante que saibamos alguns fundamentos básicos das terapias que submetemos nossos filhos para podermos fazer algumas avaliações. Algo que todos os terapeutas comportamentais deveriam fazer, antes de aplicarem técnicas de modificação do comportamento, é algo chamado análise funcional. Ou seja, não basta eu identificar a frequência com que um comportamento ocorre e pensar formas de modificá-lo ou substituí-lo por comportamentos mais adaptativos, o ideal é que eu observe em que contextos eles ocorrem, qual a função que ele ocupa na vida da criança, para depois pensar nas técnicas.


Uma análise funcional bem feita impede que as estereotipias sejam substituídas por comportamentos mais "danosos", os que poderiam ser enquadrados numa definição de TOC. É algo que demanda tempo e que deve ser feito sem o uso de técnicas aversivas (como punição, etc), pois pesquisas já mostraram que, além de não serem eficazes para a manutenção de comportamentos aprendidos, também causa vários danos ao indivíduo submetido a isso. Algumas vezes eu fico perdida com isso, não sei se uma estereotipia faz mal, se é sinal de que algo está errado com meu filho, além do fato dele ser diferente, é preocupação de mãe, me pego perguntando o porquê de essas estereotipias aparecerem agora, a medicação não está sendo boa mais? É algo que eu faço ou estou deixando de fazer com o Miguel? Mas estamos nos curtindo, aprendendo juntos sobre essa caminhada ou ainda uma viagem onde eu me sinto passageira de primeira classe.  Deus, fez de tudo para me oferecer o melhor percurso, o melhor destino e a melhor experiência da minha vida. Pra mim todo amor do mundo se resume em um nome "MIGUEL", com ele e por ele eu enfrento tudo...


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