terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Escola especial ou regular?



Me lembro como se fosse hoje o dia em que saí da sala das terapeutas do Miguel que tinham se reunido para conversar comigo e meu marido, toda a equipe (psicologa/fonoaudióloga/terapeuta ocupacional) com uma certeza "o Miguel precisava ir para a escola, urgente". Eu que até aquele momento tinha relutado com todas as minhas forças porque achava que não seria uma boa coisa porque ele nem mesmo falava, não aceitava que ninguém desse comida pra ele, e aliás era meu bebê mesmo já tendo 3 anos, mas eu sempre preferia que eu cuidasse dele. Mas naquele dia depois de conversar com os profissionais que poderiam me orientar da melhor maneira possível a como agir pra ajudar Meu filho, eu saí decidida a procurar uma escola pra ele.

.....


Saí a conversar em todas as escolas do bairro, uma delas, particular me disse que não tinha estrutura para uma criança autista, 

que não teria professor suficiente pra que pudessem dar uma atenção especial pro Miguel, mas disseram que fariam o possível e pegaram meu telefone para me avisarem quando eu poderia ir fazer a matricula, segundo eles 15 dias depois, mas até hoje não me ligaram, 2 anos depois. Vi que as escolas particulares além de estarem fora do meu orçamento ainda parecia que não faziam muita questão de ter uma criança autista em suas salas de aula e aí só me restou recorrer as creches municipais que até então eu era super contra.
Fiz a inscrição mas ainda torcida pra tal escola particular me  ligar. Em fevereiro, na semana das aulas começarem, a Apae daqui de Londrina que fica bem longe da minha casa chamou o Miguel e na mesma época a creche recém inaugurada no meu bairro com uma estrutura perfeita também abriu vaga para o Miguel. Fiquei sem saber qual opção seria melhor para ele e resolvi recorrer as terapeutas para me ajudarem a decidir. Fui fazer a triagem com o Miguel e para minha surpresa. a neuropediatra que faz a triagem lá era a mesma que acompanhava ele e por isso ela já o conhecia. Na consulta de triagem eu disse que a creche também o tinha chamado e eu estava em duvida, ela me disse que preferia ver o Miguel em uma escola regular, ou em uma escola só para autista que era o lugar que o Miguel já fazia as terapias, mas apenas a parte clinica, não tinha vaga disponível para escola. Eu aceitei a sugestão dela mas ainda fui falar com as terapeutas antes de dispensar a vaga da Apae. A fono e a terapeuta ocupacional também foram favoráveis a escola regular já que estava até disponível a professora de apoio para ele, elas disseram que achava que seria a melhor opção para o Miguel e como ele já tinha começado a falar quando era bebê, que ficar com outras crianças típicas poderiam ser ótimo pra ele e um estimulo a voltar a falar. A psicologa já preferia a Apae, mas eu que já não estava animada com a Apae pela distância, então corri para a creche e fechei a matricula, e acredito que foi a melhor decisão. 

O Miguel ficou um ano nessa escola e posso definir apenas como um ano perfeito. A escola e a diretora estavam super empenhadas em fazer dar certo.

As professoras de apoio também, as terapeutas do Miguel vieram na escola algumas vezes para orientar também em como proceder com ele e eu que já estava super feliz com a escola, no segundo semestre veio um professor de apoio que no inicio até achei ruim por ser homem, alias um rapaz bem jovem e eu achei que ele não saberia lidar com o Miguel, mas super me enganei porque ele acabou sendo o melhor professor de apoio que ele poderia ter, depois fiquei sabendo que esse professor estava se especializando em educação especial e por isso se empenhou tanto com meu filho, e se interessou tanto pelo Miguel que evoluiu mais ainda, alias esse professor conseguiu fazer coisas com ele que eu nunca tinha conseguido, e o Miguel sempre adorou ir pra escola, nos finais de semana ele pegava a mochila pedindo pra ir pra escola e é assim até hoje. Mas a ano estava acabando e fui chamada para ser comunicada que o Miguel seria transferido para uma escola de ensino fundamental porque ele faria já 5 anos no próximo ano. Entrei em panico. eu não sabia como a outra escola receberia meu filho e agora em escola fundamental com vários alunos maiores que ele, mesmo que em outras salas, não sei nem explicar direito o que eu sentia mas fiquei preocupada. Mas como sempre Deus faz tudo certinho e antes mesmo da carta de encaminhamento para a nova escola chegar, eu recebi uma ligação da escola que atende apenas autistas que a neuro tanto tinha me indicado e eu esperava na fila a dois anos, me ligaram dizendo que tinham uma vaga para o Miguel e claro que eu corri fazer a matricula e nesse ano todo então ele ficou lá e vai continuar no próximo ano. 

Quero falar desse assunto como sempre baseado em minhas experiencias. O Miguel já esteve nos dois modelos de escola. Eu acredito na inclusão porque eu tive uma boa experiencia, mas infelizmente sei que são poucas escolas que estão dispostas a incluir realmente a criança especial. 


Converso com várias mães que não tem boas experiencias, esse também é um tema que necessita de uma avaliação criteriosa porque cada criança tem seu perfil de desenvolvimento e  de necessidades distintos. Não é possível aplicar uma regra geral. Nossas escolas públicas ainda necessitam de novas estruturas tanto físicas, quanto pedagógicas para lidar com o aluno deficiente, mas a inclusão é realidade, é lei! Há também falta de interesse do governo estadual para disponibilização de verbas para os materiais necessários para uma aula diferenciada pra esse aluno e infelizmente, falta de interesse também do corpo docente das nossas escolas, a função do psicólogo escolar (que não temos na escola pública) sobra para o pedagogo que sempre carregado de tarefas e funções não dá a devida atenção à casos de inclusão. O professor se encarrega ( se é claro, ele quiser, e ser for um BOM professor) de incluir este aluno na escola regular, porém, sozinho não faz milagre. É possível, por exemplo, que uma criança com autismo ou Síndrome de Down não consiga se alfabetizar em uma escola regular e os pais optarem por, naquele momento, colocá-la em uma escola especial. Há também o caso de crianças que não conseguem ficar o turno escolar inteiro dentro de uma sala de aula por não conseguirem se concentrar. Como os professores aplicam o conteúdo quando há uma criança com autismo em sala? Como esse aluno deve ser avaliado? Repetição é válida? Avaliações alternativas para ele não vão despertar o sentimento de injustiça nos outros alunos? Por isso é preciso cautela. O fim das escolas especiais ainda está longe justamente para poder atender casos como esses. Mas elas estão cada vez mais raras no país e no mundo, deveria por exemplo ter muito mais clinicas escolas para crianças e adultos autistas. A escola do meu filho e 100% especial e não me arrependo dessa escolha. Com tantos profissionais despreparados no nosso país a inclusão é mais benéfica para crianças típicas aprenderem com as diferenças do que os autistas, principalmente os não verbais como meu filho, se "socializarem". Acho que cada caso é um caso. Se uma criança é verbal e consegue seguir as aulas e sua habilidade cognitiva é alta, apesar de precisar de uma assistente só para ela para controlar o lado emocional e sua ansiedade, não vejo porque não  estar em uma escola regular, desde que esteja com um professor de apoio para auxiliá-la se necessário. Professor de apoio é direito, e você pai deve correr atrás e exigir sim, se necessário vá na secretaria de educação mas faça valer os direitos do seu filho. 

É preciso ficar atento as necessidades do seu filho, converse com os profissionais terapeutas sobre a opinião deles do que pode ser melhor para ele,
acho super importante conversar com os terapeutas porque infelizmente alguns pais principalmente aqueles que acabaram de receber o diagnostico do filho acabam dando a impressão de que pra eles a inclusão em classe regular é quase um atestado de "normalidade", como se aquela criança fosse acompanhar os demais da noite pro dia e isso acaba sendo um fiasco. Os professores, que já tem na maioria das vezes mais de 20 alunos em sala, não sabem como trabalhar com estas crianças ( e alguns podem até ignorar mesmo essa criança especial). Eles, por sua vez, acabam ficando desmotivados. os profissionais da escola as vezes até se esforçam a inclusão, mas esperam que a criança especial se comporta como as outras crianças típicas.  


Lembrando que a Lei exige que TODAS as escolas tenha Sala de Recursos para pessoas com deficiência. E que a LEI também diz que a escola TEM que PROVER atendimento ESPECIALIZADO e ADAPTADO. Mesmo autistas leves não tem que "seguir" a turma, e tem DIREITO à adaptação. Na minha opinião as classes especiais deveriam ser na escola regular. Acho que seria uma ótima opção. Eu vi a inclusão acontecer com meu filho no ano passado, era lindo de ser ver, as vezes eu chegava lá de surpresa para dar uma "fiscalizada" e via as crianças procurando brincar com o Miguel, isso sem falar que todos os dias quando chegávamos na escola, ele era recebido pelos coleguinhas todo feliz e até na rua quando encontrávamos essas crianças, elas vinham "conversar" com o Miguel mesmo ele não falando e portanto não respondendo essas crianças, mas no ano que vem começa o período de alfabetização e pelo menos por enquanto eu não acho que o Miguel conseguiria acompanhar em uma escola regular, acredito que terá que ser em um processo individualizado pra ele.  Os pais precisam descobrir o que é melhor dentro da realidade de seus filhos, sem utopias, sem discurso bonito que na prática não funciona. 


Não quero dizer que não devemos matricular as crianças nas escolas regulares mas sim que devemos conhecer bem a escola, a adesão de professores e equipe diretiva da escola para garantir que essa criança seja bem atendida, não apenas aceita,  acompanhar durante todo o ano letivo, fazendo reuniões sistemáticas, discutindo casos e dando o suporte necessário. O que não pode acontecer é a escola funcionar como um "deposito" e a criança como um "objeto" que é deixado la´todos os dias e simplesmente ele fica na escola sem um atendimento digno a essa criança que precisa de uma atenção especial. Apenas quero lembrar a importância de uma preparação adequada por parte das escolas, que precisam considerar as necessidades de todos os alunos, com ou sem deficiência. A inclusão deve ser mais do que um conceito, precisa ser adotada no dia a dia das escolas. Quando a escolha é pela escola especial devemos ter o mesmo cuidado em conhecer a proposta e a forma de trabalho e acompanhar cada etapa dessa criança, pois muitas vezes o que vemos é que as escolas especiais nivelam por baixo os conteúdos trabalhados impedindo que as crianças progridam no seu ritmo, dentro de suas capacidades. Essa escola em que o Miguel está agora é só pra autista e eu sempre quis que ele ficasse nessa escola porque vejo como uma extensão das terapias, já que ele é atendido por professores e profissionais especializados em autismo. Os pontos positivos da classe especial é que existe 1 professora para olhar apenas 2 crianças(se houver necessidade fica 1 por 1),e são treinadas para incentivar e auxiliar nas tarefas (como comer sozinho e etc...). Alem de mediarem as interações entre crianças Esse é o tipo de orientação difícil de ser dada porque embora as leis assegurem a inclusão dessas crianças em salas regulares de ensino com as devidas adaptações na prática e na realidade vivida pela maioria das crianças isso é uma teoria não aplicada embora urgentemente necessária.


A grande vantagem da escola especial é que as classes são menos numerosas e normalmente a equipe é mais flexível e aceitam melhor as limitações das crianças, mas isso também não é garantia. Não fico 100% tranquila com a escola que o Miguel está também, as vezes eu sinto que queria mais e por isso no ano que vem já tenho em mente de quase "viver dentro da escola" para que o máximo seja extraído. E mais uma vez,  cada criança é unica e a melhor escolha deve ser feita baseada no seu filho. Acho que é preciso pesquisar, buscar indicações de pessoas que tenham seus filhos matriculados nessas escolas, levar seu filho, quando possível, para conhecer e ser apresentado, ver o que cada escola fará pela criança e acompanhar, acompanhar e acompanhar sempre. 





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3 comentários:

erlon rodrigues disse...

Joyce, eu acho ate curioso, você relatar que vai quase que viver dentro da escola, minha filha esta numa escola especial paga pelo governo, e a diretora não permite que entremos na sala de aula em hipótese alguma, aliás sem hora marcada nem se quer nos atende.Queria saber qual é a receita?Esse ano quase rolou processo, simplesmente por que questionei o por que ela não poderia enviar o caderno de minha filha para eu ver, pois após mais de 8 meses, eu nunca havia visto.(quem esta´escrevendo é a mãe da Ana Clara, meu nome é Rosangela.

Joyce Almeida disse...

Oi Rosangela. Então, eu já percebi que a escola não faz muita questão de ter os pais por perto não, mas vou virar aquela mãe que não sai do pé, sabe, tem uma mãe na escola do Miguel que "brigou" ´pelos direitos e agora a escola faz uma reunião com ela a cada dois meses para falar sobre a filha, e é o que vou fazer, acho que é nosso direito saber do andamento e como nossos filhos estão indo, até porque eu acredito que uma boa educação especial tem que ser em parceria escola e familia, Pode ser que eu compre briga também, mas vou correr atrás e se preciso vou exigir, só acho ruim a gente comprar briga na escola e depois eles quererem descontar a raiva da gente nos nossos filhos, mas vou ter que correr o risco porque não estou gostando de ficar às cegas, na creche todos os dias eu era comunicada de tudo o que tinha acontecido, isso porque era escola regular, agora que é especial eu acho que deveria ter uma maior participação ainda, uma parceria mesmo de escola e pais.

Joice Almeida disse...

Oi Rosangela. Então, eu já percebi que a escola não faz muita questão de ter os pais por perto não, mas vou virar aquela mãe que não sai do pé, sabe, tem uma mãe na escola do Miguel que "brigou" ´pelos direitos e agora a escola faz uma reunião com ela a cada dois meses para falar sobre a filha, e é o que vou fazer, acho que é nosso direito saber do andamento e como nossos filhos estão indo, até porque eu acredito que uma boa educação especial tem que ser em parceria escola e familia, Pode ser que eu compre briga também, mas vou correr atrás e se preciso vou exigir, só acho ruim a gente comprar briga na escola e depois eles quererem descontar a raiva da gente nos nossos filhos, mas vou ter que correr o risco porque não estou gostando de ficar às cegas, na creche todos os dias eu era comunicada de tudo o que tinha acontecido, isso porque era escola regular, agora que é especial eu acho que deveria ter uma maior participação ainda, uma parceria mesmo de escola e pais.

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