segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O peso da comparação





É sempre a mesma conversa. Nossa seu filho ainda não fala? Meu sobrinho tem 1 ano e já recita os poemas de Drummond. Ele ainda não anda? O filho da vizinha do motorista do meu patrão tem um ano e já sabe voar. Seu filho ainda usa fraldas? Meu neto tem 6 meses e já vai ao banheiro sozinho. E a que eu mais escuto: O Miguel não quis almoçar? O fulano comeu três vezes e ainda pediu mais.... Ou poderia ser o fulano comeu brócolis com quiabo e berinjela e ainda pediu jiló... Claro que tudo que falei é uma brincadeira mas é quase isso. As pessoas e muitas vezes da nossa própria família insistem em apontar as dificuldades dos nossos filhos e contar as super vantagens de outras crianças. E isso dói e dói muito em nós mães especiais que sabemos muito bem o  quanto uma coisa que as outras pessoas consideram simples pode ser um pouco mais demorado para nossos pequenos, mas pode ter a certeza que quando eles conseguirem nós vamos comemorar muito. 

Se tem uma coisa que aprendemos com a maternidade especial é dar  valor a tudo o que nossos filhos conseguirem evoluir e comemoramos com grande estilo. Cada pequeno passo é comemorado como uma milha caminhada.
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Aliás isso começa muito cedo. Quando temos o nosso bebê, cada coisinha que fazem por pequena que seja é uma grande alegria. Desde quando aprender a sorrir correspondendo a uma brincadeira, as gargalhadas, nunca me esqueço da primeira gargalhada do Miguel, vibramos quando aprendem a segurar a mamadeira, a dar tchau, e algumas eu vivi com o Miguel que hoje ele já não faz mais e talvez seja o que mais tenha me marcado, como as primeiras palavras que hoje ele não fala mas eu nunca vou me esquecer. Sempre fui muito ansiosa e com o Miguel tive que ir aprendendo a mudar isso em mim. Muitas vezes definimos que é a hora dos filhos fazerem tais coisas, porque o filho do vizinho faz, e infelizmente a nossa cultura muitas vezes nos levam a pensar assim, em nosso dia a dia, padrões pré-estabelecidos de como ser e se comportar são colocados para nós em todo lugar e a todo o momento, e muitas vezes nem mesmo é na mal intenção, mas as pessoas acabam colocando nas costas dos nossos filhos e nas nossas também o peso da comparação. Isso começa desde o nosso tempo em que insistem que temos que ter notas boas porque a fulana tira, temos que aprender a nadar apesar do medo porque o filho da vizinha aprendeu a nadar sozinho, temos que comer tal alimento porque o filho da amiga do padre come saudavelmente e tem o peso e corpo ideal. 


Como eu disse as vezes as pessoas não fazem por mal, acham que é um incentivo, mas é uma maneira errônea de pensar. se as pessoas pararem de comparar as outras  e começarem a respeitar o que elas verdadeiramente são, metade daquilo que percebem como "problemas" acaba. "Qualquer comparação é negativa para a criança". Por favor, não comparem as crianças, principalmente as crianças especiais. Cada umas delas é única, e tudo vai acontecer no tempo certo. Sei que as vezes é inevitável a comparação em nossas mentes, por exemplo, quem nunca se pegou em um parquinho lotado de crianças vendo outras crianças da mesma idade do seu filho fazendo coisas que ele ainda não faz e muitas vezes ficamos imaginando como seria se não existisse o autismo em nossas casas, mas temos que pensar muito antes de falar qualquer coisa perto dos nossos filhos porque geralmente eles podem não demostram mas estão atentos a tudo o que acontece em volta. Eu sou humana e já me peguei fazendo isso algumas vezes, mas aprendi em uma das varis pesquisas que fiz sobre autismo, em momentos assim sempre comparar o meu filho com ele mesmo. Por exemplo, faço questão de tempos em tempos comparar o que o Miguel consegue fazer hoje que não conseguia no ano passado, e é ai que eu vejo as incríveis superações e evoluções dele.


Cada criança autista tem o seu tempo e desenvolvimento com as suas habilidades e aptidões. Temos que incentivá-los a desenvolver a habilidade que notamos que é mais deficiente, mas nunca usando de referência o outro. Isso sem falar que autismo é um espectro e portanto é muito amplo,  não da pra comparar nem mesmo uma criança autista com outra autista porque sempre percebo com as mães que converso que embora eles tenham muitas coisas iguais, também existem muitas outras extremamente diferentes. E sempre vai existir uma criança autista que falou primeiro porem demorou mais para ser desfraldado, ou vice versa e por ai vai, cada uma pode apresentar um desenvolvimento diferente mesmo estando dentro do mesmo espectro. Ficar comparando é carregar um peso desnecessário, o peso de ficar pensando porque o seu filho ainda não faz o mesmo que o outro, achar que você esta agindo errado, que faz pouco ou que você não tem um filho "normal". você acaba reconhecendo seu filho pelo o que ele não é capaz de fazer ao invés de reconhecer as incríveis qualidades e superações.

Sabe aquela história da professora pássaro que disse a mãe peixe que seu filho tem um sério problema de retardo porque tirou outro zero no exame de voo? 
(ilustração compartilhada no facebook)

Sempre penso nisso quando vejo adultos querendo acabar com a diversidade humana e colocar todas as crianças, da mesma faixa etária, na mesma bandeja, se esquecendo das particularidades de cada uma. Comparar uma criança especial com uma criança tipica é totalmente injusto. Toda a vez que corto o cabelo do Miguel ouço algo  do tipo "Nossa, ele chora tanto pra cortar o cabelo, fulano fica quietinho... Esses dias eu respondi, pois é a diferença é que o Miguel é autista e crianças autistas muitas vezes tem a sensibilidade sensorial alterada e podem sentir extrema sensibilidade do couro cabeludo, até citei o exemplo de uma criança que desmaiou só porque alguém para segurá-la em um tombo a pegou pelo cabelo, no sentido de segura-la de algo pior. Como comparar uma criança autista com uma criança tipica? Totalmente absurdo.


E além do mais MATERNIDADE NÃO É UMA COMPETIÇÃO e nem o desenvolvimento dos nossos filhos. Não precisa se justificar se você faz isso, se surgiu o assunto e você comentou a vantagem do seu filho, se você tem intimidade pra isso e consciência tranquila pra saber que não está deixando a outra mãe pra baixo. Todo mundo gosta de ouvir experiências e todo mundo conta, é assunto. A crítica é ao comentário destrutivo, que só gera competição, como se uma criança fosse melhor que a outra por isso. Sabe o que vai fazer diferença? Criar seu filho com amor, carinho e limites. O resto o tempo apaga. O fato é que não existem duas crianças iguais, até mesmo gêmeos idênticos tem as impressões digitais diferentes o que mesmo aparentemente iguais os tornam diferentes. Por favor, parem de comparar meu filho, o desenvolvimento dele é único, respeitem isso. Poupe-se. Poupe-nos. Se eu contar uma coisa legal que considero incrível que ele acabou de aprender, tente não contar que se filho já faz mais do que isso é bem mais novo, é que as vezes eu me empolgo e quero compartilhar a alegria que estou sentindo, me deixa curtir esse momento só um pouquinho. Não sou egoísta e quero celebrar junto com você as conquistas do seu filho também, mas por um minuto, só por um minuto me deixa sentir que eu tenho o filho mais incrível do mundo. E ele é... 



// O corpo do texto deve ficar no lugar deste comentário. //


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2 comentários:

erlon rodrigues disse...

JOyce, gostei muito do seu texto, principalmente daquela parte na qual devemos comparar nossos filhos com eles mesmos, entretanto, tenho quase certeza absoluta que as pessoas que comparam nossos filhos nao fazem por mal, muitos nem sabem que eles são autistas.O pior está dentro de mim, eu mesma comparo minha filha com outras crianças, sou consciente de que eu deveria saber tudo o que minha filha deveria saber em cada fase, então não vai ser o que as outras pessoas comentam que me entristece, mas saber que ela poderia fazer mais e não faz.Sem dúvidas nenhuma fico feliz com cada avanço, cada sorriso, cada palavra hoje, outra daqui a meses, um tchau para a sua amada cachorra, que aliás um tchau que nunca me deu, quando a Ana estava nos grupos era a criança mais amorosa do mundo, enquanto isso os outros batiam, mordiam, etc. Eu dava graças a Deus que ela nao fazia isso, e agora aos 7 anos, morde, bate, aliás chuta e muito forte, isso nos deixa arrasados, pois sabemos que uma criança amorosa cativa a todos, agora vejo medo nas pessoas, aliás eu mesma sinto medo as vezes, medo do agora, medo do futuro.O importante no meio dessa montanha russa, é que jamais cheguemos a desistir deles, e que o nosso amor supere tudo.

Joyce Almeida disse...

Olá Erlon, muito obrigado por deixar sua opinião aqui, é muito importante. Aqui eu fico extremamente chateada porque as pessoas que eu citei que sempre comparam meu filho são pessoas muto próximas que sabem do autismo e das dificuldades dele, raramente ouço de pessoas desconhecidas, na verdade nem me lembro de algumas vez isso ter ocorrido, mas vivencio essas cenas diariamente com pessoas que convivem com o Miguel, por isso me sinto triste e até incomodada.

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