segunda-feira, 17 de abril de 2017

Mãe de autista e a arte de ouvir palavras não ditas!




Dizem que quando nasce um bebê, nasce também uma mãe, e incrivelmente aprendemos coisas novas a cada dia e com o tempo vamos descobrindo que somos capazes de coisas que nunca imaginamos antes. Descobrimos uma força antes desconhecida e aquela mulher que antes tinha fama de não "ter boca pra nada", de repente se vê uma mãe leoa capaz de qualquer coisa pra defender sua cria. Umas das primeiras "habilidades" adquiridas por uma mãe é interpretar as necessidades do filho, interpretamos choros e resmungos e de repente até olhares e com uma precisão considerável, claro que as vezes podemos nos enganar, mas na maioria das vezes sabemos o que eles precisam no exato momento e é assim até que a criança possa falar e dizer o que quer. 


......

Com mães de crianças especiais que não falam como autistas não verbal que não usam  a voz para oralizarem o que querem ou precisam, 

essa capacidade se estende ao longo de toda a vida e acho que a cada dia aprimoramos esse sexto sentido que mães especiais adquirem. Sabemos pelo olhar dos nossos filhos o que eles querem e as vezes isso pode até ser ruim. As terapeutas do Miguel sempre me disseram que eu não deixava o Miguel pedir o quer, que por eu saber só de olhar o que ele quer, ele não precisava pedir e com isso a fala acabava ficando desnecessária já que eu e o entendo muito bem e sei o que ele quer mesmo sem falar, e isso é prejudicial, é necessário deixar ele ver a necessidade de comunicar o que quer, seja verbalmente ou de outra maneira qualquer. 


Mas mãe sabem como é né, entendemos muito bem nossas "crias", sabemos só de olhar naqueles olhinhos o que precisam e não queremos deixar eles passarem falar de nada, afinal se eu sei o que ele quer e precisa já vou dar logo. Sabemos entender quando é um choro de cansaço, de alguém que quer apenas dizer que precisa dormir, ou um resmungo de quem esta com fome, ou ainda sabemos quando estão em crise porque algo fora da rotina o deixou desestabilizado e na maioria das vezes sabemos exatamente qual foi  a quebra de rotina, mesmo se ele ao entrar em casa não pisou no local do piso que sempre costuma pisar, sim, isso acontece aqui em casa e é motivo para uma crise caso eu não deixe ele passar por aquela parte da calçada. E quantas vezes não ouvi uma pergunta "Como você sabia que ele queria isso?" Eu sei, simplesmente sei, na verdade não sei nem explicar, mas entendo muito bem o meu filho, entendo o que seus olhinhos querem me dizer e principalmente quando ele pega o meu rosto entre suas mãozinhas e traz pra perto do rostinho dele, eu sei que aquele é o mais sincero, puro e alto "Eu te amo, mamãe" que eu poderia ouvir.

Aprendi com o Miguel que sentimentos vão muito além de palavras e que palavras vão muito além de um som, é preciso ouvir com o coração... 

Ah e como nós mãe de autistas não verbais ouvimos com o coração, somos guiadas muitas vezes pelo som do coração, por um sexto sentido que não sabemos explicar, simplesmente sabemos que está lá. Eu como mãe entendo na  maioria das vezes o que ele quer, mas sei que isso tudo não é suficiente, porque quando eu não estiver mais aqui, quem vai traduzir esses olhares do meu filho? Quem vai saber exatamente como eu o que ele quer naquele momento? Não sei se um dia ouvirei o Miguel conversando e se um dia ele me dirá com palavras o que ele quer no momento, sonho com isso e tenho esperanças sim, mas enquanto isso não acontece, vou traduzindo o que aqueles olhinhos brilhantes e sorridentes, sim, o Miguel sorri com os olhos também, vou tentando descobrir o que ele quer me dizer. E torço pra que meu filho encontre uma maneira de se comunicar com o mundo e as pessoas ao seu redor as suas necessidades, e trabalhamos pra isso, pra que de alguma maneira exista essa comunicação que ele tanto precisará quando eu não estiver mais aqui, afinal não sou eterna. Ser mãe é assim. é viver rodeada de sentimentos e coisas inexplicáveis, é ouvir através de um abraço as mais belas frases dos nossos filhos, pode ser estranho eu dizer "ouvir em um abraço" mas sim, aprendi com o Miguel que isso é possível, aprendi que um som de "hummmm" quer dizer uma frase inteira e longa e quando me pega pela mão quer dizer "Mãe, preciso de você agora, vem comigo" e é ai que eu largo tudo pra atender ao seu pedido, como resistir aqueles olhinhos pequenos e brilhantes olhando diretamente em meus olhos, de repente seja mais fácil dizer um "não" a uma frase sonora do que a um olhar que te pede ajuda. Enquanto as outras mães estão reclamando porque ouvem o filho a chamar o dia todo em todo momento, a mãe de autista está radiante porque ouviu um "Mã" ou simplesmente porque o filho fez um contato visual, nossos valores mudam quando temos um filho especial, não é preciso muito pra fazer uma mãe especial feliz assim como nossos pequenos são felizes com o simples. 


Uma vez fomos em uma festa de aniversario e tinha um animador vestido de leão,  o Miguel ficou curioso até que descobriu que podia ver dentro da fantasia e percebeu logo que alguém estava lá dentro. A abertura era pequena, mas ele conseguiu enxergar isso, e mesmo que ele não tenha tido essa fantasia que as crianças ali por perto estavam tendo, ele se divertiu com o leão. Não é preciso muito pra uma criança ser feliz assim como um simples olhar pode fazer uma mãe feliz, Quando se diz que a criança autista tem a percepção muitas vezes mais aguçada é isso, todas as crianças ali por perto viram o leão e realmente acreditam que o é o leão e pronto acabou, mas o Miguel foi além. Aprendemos com eles a ir além também, além de palavras, além de diálogos, além das falas e encontramos respostas nos lugares mais improváveis.

Mas e  se não conseguimos traduzir os olhares dos nossos filhos, sentimos em nosso coração a pior dor que uma pessoa possa imaginar, é dolorido não compreender o que nossos filhos querem nos dizer., sim, porque traduzimos sim olhares mas tudo seria perfeito demais se sempre fosse assim não é? Mas as vezes não conseguimos saber, porque somos mães sim, mas somos humanos que podemos errar, não somos perfeitas e as vezes não conseguimos entender o que eles precisam ou quem no momento. Nada é 100%, e como nosso sexto sentido também é assim. Mas pra falar sobre isso vou fazer um outro post porque esse já está ficando extenso demais, é que quando se trata de sentimentos, meu coração extrapola e minhas mãos não conseguem parar de digitar, e se for pra falar do meu filho ainda, ai que eu não quero parar mais, como é bom falar daquilo que amamos não é?



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5 comentários:

Rose Poli disse...

Oi Joice descobri seu blog por acaso.. nas procuras incansantes sobre o Tea.. Tenho filho de 3 anos ainda não fala... começou agora a soltar umas palavrinhas.. sabe as vogais... conta ate 10... fala mama.. ( uma alegria total pra mim).. Estamos ainda na investigação mas Fono que cuida dele diz que esta fora do especto... mas não sei as vezes ele tem um comportamento que me levanta suspeita O neuro tb diz que por enquanto esta fora,, so tem um atraso de fala devido a perda de audiçao que teve.. Descobrimos recentemete.. Mas ele e seletivo com comida e sabores.. so aceita o que conhece.. eu sofro.. quando saio levo tudo de casa.. Mas tb não sei se somente isso ja caracetriza o TEA.. Tantas duvidas.. mas vivo feliz com ele e muito soridente carinhoso.. pede beijo toda hora um doce .. e calmo.. tem sim seus momentos de furias . mas so as vezes,,, Adoro vir aqui e ler vc relatando o miguel estou apaixonada por esse sorriso lindo que tem.. Vc me ajuda muito.. me encoraja.. Ja li coisas aqui que fiquei em casa refletindo.. Foi muito bom pra mim.. Abre meus olhos.. que por não saber ainda fico na angustia e esqueco de viver o momento e as descobertas.. Obrigada adoro vcs !!! Um bjao pra vc e o lindo do Miguel.. Ah adorei o posto do Beto carreiro sera nossa proxima viagem.. kkkk

Andri P disse...

Adoro seus textos!
Ser mae de autista nao e facil mas tb nao e essa "tortura" que muitas pessoas acreditam!

Bjs

Joyce Almeida disse...

Isso mesmo Andri. Vamos vivendo um dia de cada vez ne. Entre batalhas e vitórias o amor sempre vence . bjs

Joyce Almeida disse...

Nossa Rose que legal ler seu comentário. Fiquei muito feliz ao seu carinho com a gente. Deus abençoe muito vc e seu filho. O importante é que vc ja esta correndo atrás para ajuda-lo, sendo TEA ou não. Tenho certeza que vc terá muitas boas novas para nos contar. Fico contente que eu tenha ajudado de alguma forma. Com o blog aprendi a ter um carinho muito grande por pessoas que nao conheço pessoalmente mas que vivem a mesma realidade que a minha. Beijos de luz em seu coração.

Rose Poli disse...

Obrigada Joyce com certeza voltarei aqui para contar.. Pois leio seus post sempre... Vc me mostrou o outro lado .. o lado bom.. que mesmo com as dificuldades que enfrentamos, tem sim muito mais prazer no que fazemos a eles e um ensinamento constante ne.. e muito mais amor.. Vc me mostrou isso aqui com seus relatos.. Hoje tenho uma outra visao do autismo.. Se meu Lorenzo estiver ou não dentro do especto ... aprendi muito.. Não para não viu de postar.. pois isso e um dom .. o dom de repassar os ensinamentos.. Nunca e demais conhecimento.. felicidades a Vc e o Miguel.. bjos

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